segunda-feira, 27 de julho de 2015

Opinião: Até Lá Abaixo

Três homens, um jipe e 150 dias de aventuras em África

Foto: Cláudia Pereira
Olá Internautas! Hoje quero falar-vos do livro Até Lá Abaixo, do jornalista Tiago Carrasco. Já o tinha lido em 2011 e não raras vezes me lembrava das aventuras destes três amigos. Talvez por adorar aventuras e sonhar ir a África.
Na imagem da direita podem ver todo o percurso dos três aventureiros.

Tiago Carrasco, o fotógrafo João Henriques e o cameraman João Fontes, percorreram a costa africana (30 mil quilómetros) em 150 dias no jipe Yuran, com o pretexto de ir ver o Mundial de Futebol.
«Um viajante em África encontra inúmeras dificuldades: doenças, polícias corruptos, animais selvagens, insetos estranhos, água contaminada, falta de comida e muitas outras que o levam, na melhor das hipóteses, ao desespero» (Carrasco, 2011: 115).
Ao longo da viagem, os três aventureiros descrevem tudo o que vão assistindo e fazendo. Deparam-se com lutadores com menos de vinte anos que «correm nas praias, levantam pneus, eixos de automóveis para ganhar músculo e combatem nos bairros mais pobres da cidade» (Carrasco, 2011: 76). A vida dos habitantes é de facto muito sofrida. Os recursos são poucos. Um empresário conta que «vivemos hoje como se vivia há cem anos na Europa. Não há trabalho, não há dinheiro, sofremos estas guerras todas, com fome» (Carrasco, 2011: 99).

São incríveis estes relatos. Vocês talvez estejam a pensar que "isso já toda a gente sabe", mas o livro não mostra o que toda a gente sabe. Mostra a realidade. Tem muitas pessoas dentro dele e é isso que me faz relê-lo e ficar sempre impressionada com a(s) história(s). E com a falta de conhecimento do povo.

Os rituais de circuncisão dos rapazes e de excisão das raparigas já foram muito falados e continuam a existir. Como é que ainda têm estas mentalidades? Porque é que há um contraste tão grande entre o norte e o sul do mundo? O que podemos fazer por estas pessoas? Reparem na descrição:
«O ritual de circuncisão é o ato central da iniciação dos jovens. O que acontece durante a ceimónia é o grande segredo da vida e a sua revelação é punida com a morte pelo irã. O iniciado é imerso no lodo de um rio de joelhos para dificultar as contrações durante o corte do prepúcio que o mestre realiza com uma faca afiada. Deve mostrar força e coragem não emitindo qualquer gemido de dor. Com pedrinhas aquecidas, estanca a ferida. No final, é levado para as cabanas, onde fica de bruços sobre covas durante dois meses, para evitar que a ferida toque na terra» (Carrasco, 2011: 105).
O pior é que isto é só um excerto de todo o ritual, que para mim não faz sentido. Respeito a cultura deles, mas também considero que um ser humano não precisa destas práticas para ser feliz.

À parte tudo isso, há coisas bem divertidas, como por exemplo entradas "clandestinas" em festas magníficas ou mesmo o episódio de uma galinha. Primeiro, conseguiram entrar no concerto de Salif Keita para o primeiro-ministro. Uma festa privada para a qual era "necessário convite".
«A cerimónia era de gala, nós estávamos vestidos como quem vai para a praia e o jipe estava coberto de lama. Eu tinha um boné seboso e calças rotas, o Fontes estava de calções, o Jonny tinha a camisola esburacada nos sovacos e o Kassim [habitante africano] parecia um delinquente jamaicano» (Carrasco, 2011: 123-124).
Depois dessa aventura vem a melhor. A da galinha. Ofereceram-lhes o animal e eles não podiam recusar a oferta. Então, ataram as aves de cabeça para baixo ao jipe com um cordel. «Viajavam com a cabeça pendurada à altura da janela do condutor, olhando para mim fixamente, e cacarejavam a qualquer solavanco» (Carrasco, 2011: 140). «A galinha que vivia no jipe há três dias, debicando milho dos bancos e largando penas nos tapetes» (Carrasco, 2011: 166).

Posto isto, não é preciso dizer mais nada. Ou é?

Pormenor de página. Na página esquerda um lutador senegalês.
Foto:Cláudia Pereira

A partir deste livro acho mesmo que era capaz de escrever uma tese. Há tantas mais coisas incríveis que gostava de vos contar...


«E assim viajando, eles foram da lusa mediocridade se libertando.»


Miguel Sousa Tavares

2 comentários:

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