quarta-feira, 27 de abril de 2016

O Tempo

Foto: DR
As vinte e quatro horas tornam-se poucas para os atarefados. Querem fazer tudo e de tudo. O dia torna-se pequeno, parece que não fizeram nada mas, no final, fizeram mais do que o expectável.

Ter a agenda sempre cheia dá duas sensações: desespero e alegria. Quere-se cumprir tudo e ainda fazer tudo bem. O objetivo é chegar ao final do dia e dizer "consegui" mas a realidade é que se chega ao final do dia e a única coisa em que se pensa é "não fiz nada". Quando isto me acontece pego numa folha e numa caneta e relato o meu dia em tópicos. A minha agenda torna-se pequena e o dia que era pequeno afinal foi o suficiente para cumprir o prometido.

Fico bastante grata e entusiasmada quando dou o meu melhor. A organização compensa. Logo na noite anterior faço uma lista de tarefas. Dá energia para o dia seguinte. Não gosto de falhar, mas aprendo mais quando erro do que quando recebo prémios. Quando começo a perder a energia vou de novo buscá-la à música ou faço algo que me faz mais feliz. Pelo meio das atividades as pausas breves são usadas para chatear os meus.

Há sempre tempo para tudo, sobretudo para estar com as pessoas de quem gostamos. E quando tivermos tempo a mais, há que desconfiar das oportunidades que eventualmente estamos a deixar para trás. A nossa vida não pode ser comandada pelos ponteiros do relógio, por um instrumento que tem como objetivo facilitar-nos a vida e não complicá-la.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Século XXI

Foto: DR
A televisão é um mundo à parte. Acessível a alguns e com interesses que vão para além de informar ou entreter.

Estudar Jornalismo e Comunicação já me fez, obviamente, pensar na possibilidade de ir para a caixinha. Depressa o pensamento deixa de existir. Há muitas restrições. Não se vêem muitas etnias nas redações. É preciso estar bem atento, aliás, para se ver alguém "diferente". Não se vêem muitas pessoas à frente das câmaras com pesos XXL ou L. Não se vêem muitas mulheres à frente das câmaras com cabelo aos caracóis. Não se vêem cadeiras de roda ou muletas. É a ditadura da imagem, a restrição da liberdade. Implícita.

Se perguntarmos, dizem que todos são aceites e ninguém é discriminado. Mas no geral isso acontece. Não é por acaso que o título do jornal "Correio da Manhã" foi "Costa chama cega e cigano para o Governo". É um título claramente não jornalístico, ética e deontologicamente reprovável e, por outro lado, é um título que mostra a pouca evolução que o nosso país teve. Diz-se perante certas atitudes que "estamos no século XXI" sempre com tom de que é um século muito evoluído, mas a realidade é que a evolução (felizmente) ainda não está completa  e em certos aspetos há de estar a caminho.

Há discriminação sim, no século XXI. Quando o último lugar a ser ocupado num autocarro é aquele em que está um negro ao lado. Há discriminação quando se olha para um africano com olhos de medo e se desvia o olhar. Mas há também racismo quando o negro chama "branco" com desprezo. Muito desse "desprezo" deve-se à colonização. Trazem consigo o sentimento de que os portugueses colonizaram os seus antepassados e até de que nos consideramos superiores por isso ou na sequência disso. Falo por mim: não sou a favor de ditaduras e portanto reprovo a escravidão, a censura e a falta de igualdade.

Nós somos todos livres de trilhar o nosso caminho. Temos de ter coragem e determinação. Porque um não vamos ouvir sempre. Vai haver sempre alguém a rejeitar-nos mas isso só pode servir para juntar esforços, erguer e continuar a andar. O caminho é nosso e a vida também.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Opinião: Escrava do Estado Islâmico

Foto: Cláudia Pereira

Ver a história como real dá arrepios: as pessoas suicidam-se para não serem mortas pelo Estado Islâmico; as mulheres mais bonitas são violadas; os jovens são instruídos e um dia talvez morram com explosivos à cintura. Esta é a realidade dos “países sempre em guerra”, como são conhecidos, e que é descrita por Jinan, antiga refém e Escrava do Estado Islâmico. Aos 18 anos foi raptada pelo Estado Islâmico por ser iazidi (uma minoria religiosa curda existente no norte do Iraque).
«Para dizer a verdade, o medo reina em absoluto há alguns meses. Propagou-se desde a Síria até ao Iraque em maio, quando os rebeldes sunitas anunciaram que aboliam as fronteiras para reconhecerem um único país: a Mesopotânea. Para nós, iazidis, o Estado Islâmico no Iraque e no Levante, é Daesh, o seu nome islâmico» (p.15).
A brigada de vigilância já tinha suspeitas. O comércio e a agricultura estavam sem vida. As ruas vazias. Toda a gente o temia. Seria necessário evacuar a aldeia? Nada foi feito até que a aldeia é atacada pelo Daesh. A ofensiva do Estado Islâmico causa um pânico geral. As pessoas fogem o mais rápido possível. As casas e os seus bens passam a ser do Estado Islâmico. As mulheres com lenços a proteger a cabeça do sol de agosto de 2014, os homens com turbantes. Refugiam-se. Algumas famílias vão para locais que os peshmerga (soldados curdos) aconselha(ra)m.

domingo, 10 de abril de 2016

Um dia na Prisão

Fui visitar reclusos. Pessoas com a mesma idade que eu ou mais novas. Têm a liberdade restringida a espaços. Estão em celas, pavilhões, dentro de vedações. Cercados.

Eu e mais algumas pessoas fomos celebrar a Páscoa com eles, reclusos masculinos até aos 25 anos que estão no Estabelecimento Prisional de Leiria - Jovens, mais conhecido por Prisão Escola. Ir a uma prisão significa olhar todos como pessoas, como iguais a nós. Significa não julgar. Significa perceber o contexto de cada um. Os jovens que estão lá têm pais que estão presos, pais que os maltrataram, uma sociedade que não os acolheu ou integrou, famílias que não têm possibilidades para os deixar estudar, … Ou seja, em geral o contexto em que cresceram (familiar, social,...) que não os favoreceu.

domingo, 3 de abril de 2016

Nos "Media": Da vida religiosa à universidade

Entrevista a Emília da Conceição Ribeiro

É da metrópole e via Skype que o RAMO D’ALÉM conversa com Emília Ribeiro. A vivência da religião começou em casa, mas depressa formou o grupo de jovens do Cercal e foi catequista. Um retiro aos 19 anos foi o “clique” para a vida consagrada. A vida religiosa já a levou a vários países, mas Portugal é agora o destino da sua missão. 

Podemos começar por falar sobre a sua meninice. Como é que foi a sua infância?

Foi uma infância muito agradável, a vivência na aldeia. Eu ajudava em casa e no campo, com os animais e nunca tive dificuldades no ambiente escolar.

Era uma aluna aplicada e os seus professores até diziam para ser professora.

A minha última professora foi sobretudo quem recomendou muito que eu fosse estudar
.
Nessa altura o cristianismo já estava presente na sua vida?

Como em qualquer ambiente cristão, rezávamos o terço em casa, participávamos quase diariamente na Eucaristia, ia à catequese.

Então não integrou nem grupos de jovens nem foi catequista?

Mais tarde. Aos 18 anos formámos um grupo de jovens no Cercal que não durou muito tempo e, nessa altura, ser catequista também ajudou a solidificar a minha fé, a ver as coisas numa perspetiva um pouco diferente.
Houve uma pessoa que me influenciou positivamente, e que eu considero um santo, que foi o padre Bento Simões com quem eu gostava muito de falar.

Qual considera que foi o “clique” para a vida consagrada?

Foi um retiro que fiz, aos 19 anos, na casa das Irmãs da Divina Providência, em Fátima, depois de elas terem falado da sua experiência numa Eucaristia. Começou a marcar de maneira diferente a minha vida.

Chegou a trabalhar de forma remunerada.

Acabei a escola aos 12 e com treze anos fui trabalhar para Fátima numa casa de artigos religiosos e que alugava quartos. Dois anos depois fui trabalhar para Tomar para uma família que tinha duas crianças. Estive lá 5 anos. Conheci uma realidade diferente, que foi a vida na cidade. Aprendi bastante e foi a partir daí que parti para a vida religiosa. Aos 19 anos é que eu comecei a questionar o futuro, depois de a minha Mãe morrer. Foram seis anos de luta, de procura, mas sempre querendo fazer aquilo que eu sentisse que era a vontade de Deus. Não a minha.

A morte da sua Mãe aos 16 anos pôs à prova a sua fé?

Não. Pelo contrário. Aliás, o padre Bento Simões foi quem me ajudou a ver que onde ela estava agora podia fazer muito mais por mim e por toda a família.

Como surgiu a decisão de ir para as Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres?

Depois do retiro e de passar fins de semana com as Irmãs da Divina Providência, percebi que não me sentia bem identificada com o que elas faziam. Faltava-me alguma coisa para dar o passo. Aos 21 anos, as Irmãs Concepcionistas convidaram-me para um retiro na casa delas e comecei a ir a outros com elas, a conhecer o trabalho que elas faziam. Isso entusiasmou-me. Fez-me ver que me sentia identificada com esse carisma.

Como é que os seus pais (pai e madrasta) reagiram à decisão?

O meu pai dizia-me que era muito sério e que não andasse a brincar com isso. Eu sabia que ele se sentia muito orgulhoso.

Ingressa na Congregação e vai para onde?

Primeiro estive em Fátima, depois em Elvas. Em 1997 fui para Roma e em 2000 para Moçambique.

Quando se lembra de África, o que é que pensa?

Tenho muitas saudades, foi uma missão que me encheu as medidas, porque senti que o trabalho que fazia ali podia não ser nada mas era muito para as pessoas que servíamos, principalmente para as famílias que ajudávamos no interior e para as crianças órfãs, desnutridas e com SIDA. O último trabalho que fizemos foi abrir uma casa para crianças órfãs que me chamavam “Mamã, Mamã!”. Tudo o que fazia dava-me muito gozo.

Foi difícil voltar para Portugal?

Depois de lá ainda fui para Timor, onde se vive uma situação diferente, porque não há tanta ‘miséria’ como em África. Vir para Portugal foi encontrar uma situação totalmente diferente, toda uma ‘engrenagem’ a que já não estava habituada. Desde o princípio coloquei nas mãos de Deus para que ele decidisse aquilo que ele achasse melhor e a obediência a Deus passava pela obediência às minhas superioras.

Então não foi uma decisão sua.

Não. Quer dizer, não foi uma decisão minha, mas acatada e muito bem aceite por mim.

Da mesma forma não foi uma decisão sua ir para a Universidade Lusófona, para o curso de Contabilidade, Fiscalidade e Auditoria.

Não, não foi e estava longe dos meus planos.

Como está a correr?

Mais ou menos, sobretudo ‘pelas matemáticas’ que estão um bocado esquecidas. Foram muitos anos sem estudar.

Por fim, o que significa para si ser freira?

Significa estar livre, disponível para servir o Senhor ao jeito de Madre Isabel, fundadora da nossa congregação. Vivemos com base nos votos de castidade – castidade, obediência, pobreza. É difícil a sociedade de hoje entender a vivência dos votos, mas para mim tem um sentido muito grande.

Entrevista para jornal RAMO D'ALÉM

Foto:DR

Foto: DR

sábado, 2 de abril de 2016

Opinião: Impor limites?

Ele há pessoas que não têm mais nada para fazer. Pensam que os famosos devem ser pessoas do outro mundo, aguentam tudo e merecem ser espezinhados até ao fim. Penso sempre que é inveja quando leio comentários ridículos a pessoas que dão o seu melhor no que fazem. Não percebo como é que em vez de agradecerem, as pessoas preferem que o(a) famoso(a) chore, grite, berre, caia em depressão.
Não imagino o que é começar a ser conhecido na rua, a ter de sair uma hora mais cedo de casa porque se é abordado(a) na rua mil vezes. Não imagino o que é usar cachecol, gorro, óculos e outras tantas coisas para que ninguém me reconheça. Ou melhor, imagino, e deve ser um sufoco. Agora imaginem vocês. Queriam isso para vocês?
Porque é que as pessoas antes de insultarem um famoso não se metem no lugar dele? Quem diz um famoso diz outra pessoa qualquer. Não faz sentido, na minha cabeça, que se goze com alguém por ser gay, por calçar uns sapatos com lantejoulas, por ter o cabelo cor de rosa em vez de castanho, por ser diferente. Não faz sentido não contratarem pessoas com tatuagens na cara ou simplesmente por terem piercings. Não faz sentido vivermos num mundo onde se fala de igualdade mas onde não se põe em prática o valor de igualdade. Sempre.
Quem diz a igualdade, diz também a liberdade. Ora, deve haver limites para o humor? Pode-se impor limites à liberdade de imprensa? E à liberdade de expressão?  

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