quinta-feira, 14 de abril de 2016

Opinião: Escrava do Estado Islâmico

Foto: Cláudia Pereira

Ver a história como real dá arrepios: as pessoas suicidam-se para não serem mortas pelo Estado Islâmico; as mulheres mais bonitas são violadas; os jovens são instruídos e um dia talvez morram com explosivos à cintura. Esta é a realidade dos “países sempre em guerra”, como são conhecidos, e que é descrita por Jinan, antiga refém e Escrava do Estado Islâmico. Aos 18 anos foi raptada pelo Estado Islâmico por ser iazidi (uma minoria religiosa curda existente no norte do Iraque).
«Para dizer a verdade, o medo reina em absoluto há alguns meses. Propagou-se desde a Síria até ao Iraque em maio, quando os rebeldes sunitas anunciaram que aboliam as fronteiras para reconhecerem um único país: a Mesopotânea. Para nós, iazidis, o Estado Islâmico no Iraque e no Levante, é Daesh, o seu nome islâmico» (p.15).
A brigada de vigilância já tinha suspeitas. O comércio e a agricultura estavam sem vida. As ruas vazias. Toda a gente o temia. Seria necessário evacuar a aldeia? Nada foi feito até que a aldeia é atacada pelo Daesh. A ofensiva do Estado Islâmico causa um pânico geral. As pessoas fogem o mais rápido possível. As casas e os seus bens passam a ser do Estado Islâmico. As mulheres com lenços a proteger a cabeça do sol de agosto de 2014, os homens com turbantes. Refugiam-se. Algumas famílias vão para locais que os peshmerga (soldados curdos) aconselha(ra)m.

Para os árabes sunitas do Daesh, os iazidis são kafir (infiéis), apóstatas, ateus. «Não somos, tal como os xiitas, muçulmanos, nem seguimos, como os cristãos, a Bíblia. (…) A nossa religião [iazidis] é uma das mais antigas do mundo. Não esperámos pelos judeus, pelos cristãos ou pelos muçulmanos para termos um único Deus. O nosso calendário tem 6765 anos. (…) Acreditamos num Deus Todo-Poderoso e nos seus sete anjos. Somos no entanto considerados, há séculos, rebeldes e pagãos» (p.16)
Os jihadistas com os seus veículos com bandeira preta atacam os carros dos aldeões em fuga. Têm espingardas M16, kalashnikovs, granadas presas à cintura. «Na parte da frente das pick-ups está a bandeira com o selo de Maomé, o profeta de Alá, e da profissão de fé do islão em caligrafia árabe, la ilaha Illallah: “Não há outro deus além de Deus”» (p. 22).
O destino de Jinan estava planeado: Síria. Dinheiro, bilhete de identidade e bens materiais são entregues aos jihadistas. E será que a sua vida também?

Foto: Cláudia Pereira

Este livro da Leya é surpreendente. Tem uma história muito bem traduzida, tem uma pessoa muito corajosa que o escreve e tem um pano de fundo assustador e real. O Estado Islâmico é uma construção. Nós, os ocidentais, sabemos dos vídeos que o mesmo divulga. Sabem o que são esses vídeos? O que representam? Nós, os ocidentais, pensamos que são só as armas e o poder que estão em conflito. Mas sabem o que está por traz disso? Sabiam que as mulheres se tornavam escravas? Sabem o que é ser-se escrava do Estado Islâmico e ainda ser violada ou beber água com sabor a rato?
Jinan conta tudo com grande coragem. A fotografia da capa já revela um pouco o que foram os meses sob o domínio do Estado Islâmico. Antes de se formularem opiniões há que saber o máximo possível sobre as coisas e portanto, para mim, não é colocando uma bomba nos “países que estão sempre em guerra” que se vai acabar com algo. Há que olhar este livro como uma realidade que se arrasta há anos. Agora imaginem quantas pessoas já passaram pelo mesmo.

Foto: Cláudia Pereira

Texto escrito em parceria com a Editora Leya.


2 comentários:

  1. adoro este tipo de livros. Podemos ver o que realmente acontece e levamos um soco de realidade que é obra. Já viste o documentário eu malala?

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    1. Não, só li o livro. Sinceramente não sabia que já havia o documentário Tim. Obrigada pela dica!

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