segunda-feira, 18 de julho de 2016

Opinião: Cemitério de Pianos

Fotos: Cláudia Pereira

José Luís Peixoto desdobra-se na linguagem. Não escreve um livro igual ao outro e em todos os que li até agora, o autor é sempre irreverente e, mais do que isso, excelente.

Em Cemitério de Pianos o protagonista é Francisco Lázaro, uma personagem que faz da sua vida a corrida mas que tem uma história que não fica por aqui. O livro desperta-nos para o facto de todos termos uma trama, problemas, medos e preocupações mas que nem isso nos deve fazer parar de correr pelos nossos objetivos.

Francisco Lázaro nasceu no dia em que o pai morreu, como viria a suceder ao seu filho e, infelizmente, a história de Francisco acaba de forma trágica e o mais impressionante é que a história é real, embora também condimentada com a imaginação de José Luís Peixoto. É aí que o espanto me invade. É preciso ser-se um grande escritor para conseguir envolver o leitor do princípio ao fim com um texto que vale a pena ler (sobretudo se gostarem de Jornalismo). 

Retrata uma família e cada personagem que acabam por ter como epicentro das suas vidas o cemitério de pianos (onde guardavam pianos que ficaram por consertar). Lá, vivem à procura da música nunca encontrada dos pianos avariados. Damos por nós a imaginá-los nesse local de pó, sombrio. 

Para mim, a excelência de um autor é a capacidade de ele nos transportar para o local da história e deixarmos de pensar que estamos a lê-la. E ele próprio sentiu a necessidade de se deslocar e viver o personagem. O autor até viajou a Estocolmo para se inspirar para o livro e, certamente, o facto de ele correr usualmente também deve ter contribuído para saber o que se pensa enquanto se corre.

Cada pedaço da história tem uma história diferente que faz aumentar o drama e assim a nossa ansiedade de querer ler mais. É por isso que de um sopro se o lê todo, quase sem pausas. E de repente: o fim.



"Devagar, a claridade encheu todo o cemitério de pianos. A luz deslizou pelas superfícies de pó (...) havia pianos de todos os géneros que se erguiam, sólidos e empilhados, quase a tocarem o tecto. Encostados às paredes, havia pianos verticais uns sobre os outros na ordem com que o meu pai, ou o seu pai antes dele, os tinha equilibrado. Ao centro, havia muros de pianos sobrepostos (...) E sobre um piano de cauda estava outro piano de cauda mais pequeno e sem pés (...) O ar fresco do cemitério de pianos entrava nos pulmões e trazia o toque húmido do pó pastoso que era a única cor: o cheiro de um tempo que todos quiseram esquecer, mas que existia ainda."
Obra distinguida com o Prémio Cálamo Otta Mirada, como o melhor romance estrangeiro publicado em Espanha em 2007.

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