domingo, 4 de setembro de 2016

A Visão Depois da Cegueira



"Nunca por vencidos se conheçam"

Tudo começou com a vontade de conhecer a vida e estórias de um grande pugilista português, mas o livro trocou-me as voltas, é muito mais do que isso. 
Jorge Pina na sua humildade fugiu ao comum de uma biografia e mais do que mostrar factos da vida dele, o autor revela a sua visão do mundo. A Visão Depois da Cegueira quer chegar a muitos e por isso tem uma escrita tão simples.
Jorge Pina passou por momentos de superação. Cresceu entre a marginalidade e a toxicodependência e foi o desporto e a paternidade que o levaram no bom caminho. "O desporto ensina-nos a respeitar sempre os adversários e as regras do jogo dão-nos dignidade e fortalecem-nos o espírito" (Pina, 2015:35). As conquistas no boxe sucederam-se mas Jorge Pina lamenta o abandono da modalidade.
Reparem que o boxe é muito desvalorizado. Ao lado do ciclismo, que já recebe poucos apoios, o pugilismo ainda não é visto como um desporto que incute regras e valores aos praticantes e que pode ter benefícios tão bons quanto a ginástica artística, por exemplo. Quando se vê um combate pensa-se que "andam à purrada", desvaloriza-se quando na realidade é uma profissão e um desporto que contribui para a economia dos países, quando valorizado. Já os lutadores de boxe têm de procurar manter os pés bem assentes na terra - talvez a parte mais difícil quando se começa a somar vitórias e a subir numa carreira de sucesso. Foi o caso do pugilista português que procurou uma carreira internacional, já que "o boxe profissional português é pouco competitivo para um atleta ambicioso" (Pina, 2015:61). "Hoje somos os campeões e amanhã não sabemos" (Pina, 2015:42).

Fotos: Cláudia Pereira. DR

As lesões e problemas de uma vida em combate tornaram-no mais forte e transformaram a sua visão da vida e do Mundo. Os problemas de visão (mais tarde cegueira) fizeram-nos sair do ringue, mas nem por isso deixou de procurar conquistar sonhos e alcançar metas. Alçou voos no mundo da escrita, muito além deste livro. Já cego, começou a ver o que até aí ignorava.
"Levava a vida a correr e pensava apenas no ter. Nunca tinha parado para pensar no silêncio que agora cresce em mim, na beleza e na riqueza interior que de ouro se faz em mim. (...) No auge da minha carreira, pronto a disputar o título mundial WBO, esta fatalidade veio ditar o termo da minha carreira como boxeur, bem como o sonho de me tornar campeão do mundo" (Pina, 2015:87-89).
Do ringue foi para as pistas de atletismo fazer brilharetes na competição paraolímpica, com a ajuda essencial de um atleta-guia. A determinação e humidade não esgotaram e acredito que essas são as razões para as suas sucessivas conquistas. A Escola e a Associação Jorge Pina são exemplos disso.
Um livro que nos abre a mente em relação ao pugilismo, à cegueira e ao sucesso. A mim mudou a visão que tinha do pugilismo e reforçou a ideia de que tudo é possível, basta querer e crer. "Onde há vontade, não há limitações" (slogan).


Texto escrito em parceria com a Chiado Editora.

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