domingo, 23 de outubro de 2016

O crime de José António Saraiva

Devassa da intimidade, com o objetivo de invadir, ferir e lucrar com isso.


Chamaram-lhe "o livro proibido", o que chama a atenção porque, ou o que o autor escreveu é crime, ou a editora Gradiva não quis ver que o era, o que seria estranho. Publicou e “voltaria a fazer o mesmo” (disse o editor da Gradiva) porque o lucro era superior aos riscos. Ou porque publicaria algo “proibido”?
Quando Saraiva contactou a editora que em tempos foi do seu pai,  António José Saraiva, dizendo que tinha um livro para publicar, a Gradiva disse imediatamente que sim, sem o ter lido. A publicação de Eu e os Políticos – O que não pude (ou não quis) escrever até hoje ocorre no momento em que JAS se retira de cargos executivos no Jorna­lismo.

Porque é proibido?
A minha única ambição ao escrevê‑lo foi deixar um testemunho que possa ser útil a quem, no futuro, tente reconstituir a história deste período”, disse o autor na apresentação do livro.
Começou por ser dito que o livro divulgaria a vida sexual das personalidades, dos políticos portugueses. Os jornais começaram então a especular sobre o conteúdo e até a apresentação dele trouxe burburinho.
Pedro Passos Coelho é uma das personagens do livro. Conheceu JAS quando era líder do PSD e foi por causa de um artigo do jornalista que foram almoçar. Sem saber o que a obra revelaria, o ex-primeiro ministro esteve quase a apresentá-lo pela “confiança e respeito” que tem por JAS mas não o fez “por motivos pessoais”. Depois disso, e "por decisão conjunta do autor e da editora”, a cerimónia de apresentação da obra acabou mesmo por ser cancelada.
Diz o autor que “ninguém leu até ser entregue ao editor. Nem a minha mulher. Se lesse, não me deixava publicar…”.
JAS diz que o livro tem “muitos episódios relevantes para a história dos últimos 40 anos, contados pelos próprios protagonistas. Mas que diferença havia se escrevesse como publicação póstuma? As revelações eram as mesmas. Só eu não estaria cá para arcar com as críticas…”, explicou ao Observador. “Relevantes” é logo o que questiono e enrugo a testa ao ler “contados pelos próprios protagonistas”. Os protagonistas nem tiveram acesso ao conteúdo do livro que lhes iria expor as conversas privadas que tiveram com aquele que era jornalista.
Num post com o título “coscuvilhices”, escreveu Francisco Seixas da Costa no Facebook: “Alguém a quem determinadas informações foram prestadas, numa conversa discreta, terá o direito, mesmo que muitos anos depois, de vir a público revelá-las, sabendo claramente que, com isso, quebrou a confiança que foi posta em si? E, em especial, se a revelação dessas conversas vier a afetar a imagem de pessoas, vivas ou já desaparecidas, será eticamente aceitável publicar - nas redes sociais, na imprensa ou em livro - tais dados? A resposta parece evidente para toda a gente, mas, aparentemente, para alguns, não o é”.
Muitos dos personagens já não estão aqui para dizer se gostam do retrato ou para ver a correspondência trocada com o agora ex-jornalista exposta a quem quer ler e sem a autorização dos seus interlocutores. Também o livro Confissões, do mesmo autor, revela conversas dos políticos na intimidade de um almoço.

Conclusão
Como se por serem figuras públicas – políticos e empresários – pudessem ter as suas conversas públicas, as suas vidas fora da profissão transmitidas a todos. Um campo que pertence às revistas "cor-de-rosa" ou a publicações que não se regem pelos princípios do Jornalismo ou dos Direitos Humanos.
Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a proteção da lei” (Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo 12).
A solução é simples: ponham-se no lugar deles, dos “famosos”, dos que por terem um emprego que gostam mas que tem como consequência ser reconhecidos na rua, terem de ver as suas vidas em páginas de jornais, revistas, livros. Se fossem vocês, que fariam? Se fosse a vossa Mãe ou amigo, gostavam?
O objetivo de lucrar com o mal foi cumprido porque o livro já vai na sua 11ª edição. Eu própria o comprei porque o queria estar aqui a falar sem o ter lido ou, de outra forma, se fosse para falar com base no que os outros dizem, mais valia estar calada. Porém, o livro suscita uma discussão ética e deontológica ao nível do Jornalismo que me alerta porque não quero cair no mesmo erro ou crime.
É por estas e por outras que as pessoas desconfiam dos jornalistas e dizem “Temos de ter cuidado com o que dizemos ao pé dos jornalistas”. Assim se confunde o Jornalismo de verdade e se tira a credibilidade a uma profissão. Pergunto: há interesse público no livro? A finalidade do livro é informar o público sobre assuntos relevantes e usando meios leais? Se a resposta é não, então não digam que é de Jornalismo que estamos a falar.
A devassa da vida de “famosos” que o tiveram direito a falar antes de verem as suas conversas de restaurante gravadas para quem quiser ler representa, para mim, a pior despedida do Jornalismo que JAS poderia ter. Da informação confrontada e aprofundada, vemos em livro uma espécie de "revista cor-de-rosa" de má qualidade.


Fontes de Informação
SARAIVAJosé António, Eu e os Políticos – O que não pude (ou não quis) escrever até hoje, 11ª Edição, LisboaGradiva, 2016. 

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